Leitura de Onda

Um dia para sempre
Tulio Brandão analisa dobradinha brasileira nas rampas verde-amarelas de Trestles.
Por Tulio Brandão em 17/09/17
1400x906

Para o colunista, vitória brasileira em Trestles era questão de tempo. E ela veio em dobro. Foto: WSL / Rowland.

 

São os primeiros instantes depois de uma conquista que definem o brasileiro. O urro, a vibração incontida da família Toledo. Silvana Lima, entre pulos, com a bandeira na mão. Abraços, socos no ar, dedos em riste para o céu. A mãe que verte lágrimas com orgulho. Ian Gouveia, entre feliz e louco, ao balançar a cabeça no estilo “ah, eu estou maluco”. O abraço de Ricardo, o pai do campeão Filipe, na campeã, e o grito de Brasil até onde a garganta alcança. A torcida, que se junta ao palanque e passa a ecoar cânticos de arquibancada. Até a pequena Mahina sorri.

Alguns gringos estranham, como sempre. Mas o aussie Barton Lynch, o comentarista de surfe mais afeito à energia do brasileiro que o mundo já conheceu, seca lágrimas de emoção num canto. Bingo.

Estava escrito desde sempre nas pedras de Lowers Trestles: um dia o Brasil tomaria de assalto aquela onda. No histórico dia 15 de setembro de 2017, Filipe Toledo e Silvana Lima se tornaram os primeiros brasileiros da história a vencerem, juntos, uma etapa naquela onda. Aliás, os primeiros a vencerem juntos em qualquer onda do mundo.

Era óbvio demais, uma onda que parece pista de skate, para uma nação com surfistas forjados em rampas verde-amarelas. Por alguns anos, sobretudo nos eventos da elite, seguraram essa avalanche com um critério que, a meu ver, privilegiava um pouco além da conta apenas o surfe de linha – como visto na última vitória de Mick Fanning ali. O tempo deu aos modernos brasileiros a linha que faltava ao pico, sem lhes tirar a modernidade que se encaixa naturalmente a aquela onda.

Para além da vitória, Filipe chega também à assombrosa marca de cinco vitórias em cinco finais. A despeito de estar em sétimo no ranking, tornou-se o primeiro surfista a vencer duas provas na temporada de 2017. Venceu em casa, onde mora e é querido pelo patrocinador e pelos locais. Venceu pelo Brasil, como faz questão de demonstrar.

A vitória, esperada até pela vida marinha que habita o mar de Trestles, veio de maneira incontestável. Filipe foi, mais uma vez no ano, o melhor surfista do evento. Jordy Smith, o vice da etapa, vinha logo atrás, seguido por John John Florence, que ficou nas semifinais. Desde os primeiros rounds, a vitória parecia endereçada a um deles, mas, em 2017, o brasileiro não escorregou no meio do caminho.

Mesmo sem ser o surfista premiado pelos juízes com as maiores médias do evento – só fez soma superior a 17 pontos na fase 1, não eliminatória – Filipe impôs seu padrão ao pico, numa combinação inteligente de surfe de borda e manobras modernas, e foi sempre nitidamente melhor que seus adversários.

A final, contra Jordy, num mar praticamente sem pulso, foi o momento mais arriscado. Sua estratégia de pegar muitas ondas vinha se revelando eficaz, já que ele era o único capaz de produzir boas notas em ondas muito medíocres. Mas, a 15 minutos do fim, o sul-africano veio numa onda da série e desferiu quatro manobras – apenas uma delas, a sua famosa rasgada em arco usando borda, com mais impacto.

Talvez impactados pelo tamanho da onda, talvez pressionados pela posição de liderança ocupada pelo surfista no ranking, talvez apenas encantados com sua linha limpa mesmo em manobras quebradas, conferiram-lhe uma nota 9. Julgaram mal. Mas o oceano tratou de corrigir a possível falha do painel e segurou definitivamente as ondulações até a sirene que decretou o fim do evento e a vitória de Filipe.

 

Jordy poderia ter vencido sem ajuda de nota. Já tinha feito isso na semifinal do mesmo evento em 2016, ao eliminar o brasileiro usando a estratégia da melhor escolha de ondas. Sempre foi um surfista brilhante e, agora, é também um grande competidor. O cara da vez para o próximo título mundial. Apesar de ser grande e pesado, é especialista em ondas pequenas e médias de alta performance, com técnica forjada em Durban, sua casa, na África do Sul. Prova disso é seu histórico de seis vitórias na elite: uma no Rio, duas em Trestles, duas em J-Bay e uma em Bells Beach.

Sua lacuna de bons resultados é a mesma de Filipe: esquerdas tubulares. Este obstáculo é um risco ao título, caso Pipeline não ofereça a opção de Backdoor. Afinal, John John está ali, vice-líder, com o sul-africano na mira e a arma engatilhada.

Além do havaiano atual campeão mundial, parou na semifinal o australiano Ace Buchan, que reencontrou seu refinado backside para eliminar três brasileiros da prova, pela ordem: Wiggolly Dantas (R3), Jadson André (R5) e Adriano de Souza (QF). Das três, a única vitória controversa foi sobre Mineiro, que vinha surfando bem. Muita gente chiou – na hora, eu também. Mas, na revisão, poderia ter dado a qualquer um.

Jadson, com uma Channel Islands no pé, fez um importante ajuste em sua linha, alcançando mais projeção e definição em cavadas e manobras, sobretudo de costas para a onda. No caminho para o nono lugar, eliminou Gabriel Medina, que vinha embalado por uma final em Teahupoo. O campeão mundial de 2014 executou bons aéreos rotacionais, entre os quais o de sua última onda, com a rabeta no alto, caindo com o bico enterrado na água (nose-pick), mas não foi suficiente para passar adiante.

Além dos favoritos no papel, quem surpreendeu novamente com um surfe muito consistente foi o português Frederico Morais. Ficou nas quartas, diante do surfe mais maduro e redondo de Jordy, mas fez notas altas durante todo o evento. Em 2017, disputa palmo a palmo com Connor O’Leary o título de estreante do ano. Os dois estão praticamente empatados no ranking, com uma diferença de 50 pontos. Não será surpresa se o gajo terminar o ano entre os 10 primeiros do mundo.

Finalizada Trestles, o circuito entra nas três últimas etapas com muitas janelas abertas. Jordy lidera consistentemente, com bons resultados sucessivos, enquanto John John se mantém a uma pequena distância. Julian Wilson assumiu a liderança do segundo pelotão, a pouco mais de 8 mil pontos do líder, seguido por Matt Wilkinson e Owen Wright, que perderem de cara nos Estados Unidos e se complicaram.

1400x881

Adriano de Souza está vivo na briga pelo título. Foto: WSL / Rowland.

 

Entre os brasileiros, Adriano, em sexto, é o mais bem colocado, seguido de perto por Filipe Toledo, mesmo com uma etapa a menos. Mineiro está vivo, surfando o fino, competindo bem, e vai lutar para chegar a Pipeline na briga mais uma vez.

No caso de Filipinho, a interferência da etapa brasileira e a posterior suspensão de Fiji ainda são a maior pedra no caminho de um possível título, mas eu não duvidaria de um milagroso hat trick do surfista, com vitórias em Trestles, França e Portugal. Em ondas de manobras de alta performance, hoje, ninguém é melhor que Filipe Toledo. E ele parece já saber disso.

Gabriel, o próximo da lista, ficou bem para trás com o mau resultado em Trestles, a quase 4 mil pontos de Filipinho e a mais de 15 mil pontos de Jordy. Como a França é seu território e ele se sente muito bem em Pipeline, ainda deve ter um fio de esperança de brigar pelo título ainda em 2017.

Apesar do cenário aberto, o favoritismo vai mesmo para Jordy e John John, surfistas brilhantes e, de uns tempos para cá, com a consistência de campeões.

A odisseia da pequena gigante A vida voltou a sorrir para Silvana. Em odisseia emocional, ela dominou o pico de Trestles com muitos arcos e algumas manobras progressivas, moldados nas boas direitas de Paracuru, no Ceará. A pequena gigante não vencia uma etapa da elite desde junho de 2010, quando derrotou Sally Fitzgibbons em Lima, no Peru.

1200x801

Silvana Lima dominou o pico de Trestles e venceu mais uma batalha na vida. Foto: WSL / Rowland.

 

Na vida, passou por toda sorte de contratempos, como contusões sérias, perda de patrocínio e até preconceito, como se não bastassem os perrengues comuns a alguém com origem humilde. Num ano praticamente perdido, em que alcançou apenas dois nonos lugares, a vitória não foi suficiente para mantê-la acima da linha de corte do WCT. Mas a baixinha, como carne de sol, é duradoura e salgada: já está na elite em 2018, através da liderança da divisão de acesso.

Em Trestles, encontrou, numa prancha mágica da Sharp Eye, feita na Califórnia pelo brasileiro Marcio Zouvi, uma solução para as falhas que lhe provocaram sucessivas eliminações. Se não tem o mesmo power de algumas adversárias, talvez pela diferença de força física, conseguiu compensar com drive, linhas refinadas e velocidade. Assim, venceu o mito Steph Gilmore três vezes e ainda derrotou Lakey Peterson, que vinha surfando muito até a fase semifinal, e, na final, a estreante Keely Andrew.

Se ela vai seguir na disputa do topo ou não, sinceramente pouco importa. Silvana tem algo muito maior que seus resultados a contar ao mundo. Ela nos orgulha, conecta-nos ao mundo. Silvana é o retrato perfeito do Brasil real, às vezes sem grana, quase sempre sem filtros e, principalmente, sem medo. Viva a Sil.